Sobre viver com ansiedade

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Não é fácil. Não é bom. Não é nada daquilo que nós desejamos. Durante muitos anos questionei-me sobre o que eu tinha de errado. Porquê a mim? A verdade é que eu não pedi nada disto, não assinei nenhum contrato, não pedi por nenhum dos ataques de pânico que tive e que por vezes ainda tenho. Não pedi por nenhuma das vezes em que o ar faltou e eu achava que ia morrer com um problema no coração, e não pedi para ouvir um diagnóstico que me diz que apesar de se poder controlar vou ter de viver com isto para sempre. Não pedi mas tenho, e eu só me questionava mais uma vez: Porquê a mim? 

Agora que estamos fechados em casa devido ao isolamento social que ultrapassamos, dei por mim a pensar em imensas coisas e a começar a sentir o aperto no peito, o nó na garganta e os olhos a encherem-se de lágrimas. Sim, do nada. É assim que acontee, chega e quando dou por mim estou uma pilha de ansiedade. A verdade é que desde pequena que sempre fui muito ansiosa e preocupada, em todos os aspetos da vida. Eu pensava que o trabalho de casa esquecido ia acabar com toda a minha carreira escolar. Ficava convencida que as pessoas estavam a agir de forma estranha comigo ou que eu estava a agir de forma estranha. Eu sempre me preocupei (e ainda preocupo) se me tinha esquecido de alguma coisa: chaves dentro de casa, porta aberta, se deixei o fogão ligado, se as janelas ficaram fechadas, e por aí vai. Que eu não terminaria os meus trabalhos a tempo. Como eu já disse, não é fácil lidar com nada disto, muito menos quando não sabemos do que estamos a sofrer.
Foi no final de 2014 que sofri o meu primeiro ataque de pânico, lembro-me como se fosse ontem. O chorar intenso, a dificuldade em respirar ou controlar o que quer que fosse no meu corpo, por momentos achei que ia morrer, sentia-me como se me estivesse a afogar, o ar saía mas não entrava. Foram minutos que para mim pareciam horas, e em que só ouvia o meu colega a dizer "respira e inspira, tens de controlar a respiração". Passado algumas semanas voltou a acontecer, mais uma, e depois mais duas e por fim foi quando fui levada ao médico para tentar perceber se seria asma ou problemas respiratórios (devido a ficar sem respirar no meio da escola). Mas não, o diagnóstico era aquilo que eu nem sabia que poderia estar a ter: distúrbio de ansiedade. Fui medicada, e passei a andar com comprimidos de SOS na mala. 

Supostamente eu já era uma pessoa ansiosa, mas o problema atingiu a sua gravidade quando descobrimos que o meu pai estava com cancro. A doença dele e todos os problemas que vieram com isso foi o puxar do gatilho para o meu problema. Atenção, não leiam isto como se estivesse a culpa-lo ou algo do género. Nunca na vida seria capaz de tal coisa, mas é como se ao longo da vida eu fosse acumulando várias vivencias dentro de mim e esta tenha sido a mais forte para fazer a "panela de pressão rebentar". Na altura foi difícil de aceitar. A verdade é que viver com ansiedade, mesmo estando controlada, é uma espécie de roleta russa e eu podia dizer-vos que hoje em dia aqueles pensamentos todos já não me assolam. Que passei a compreender por completo a minha ansiedade. Poderia dizer-vos que deixei de ter comprimidos SOS na carteira. Poderia dizer-vos tudo isso, mas prefiro dizer-vos a verdade e isso é que eu ainda tenho alturas em que detesto esta condição, especialmente quando sei a teoria de como controlar um ataque de pânico e quando chega o momento não sei pôr em prática. Mas isso não significa que não tenha encontrado soluções, que não tenha seguido com a minha vida, nem que não consiga viver o meu dia-a-dia "normalmente". Com o tempo aprendi a viver assim. 

Infelizmente, a sociedade na maioria das vezes diz-nos que a ansiedade não é grande coisa e que nossos sintomas podem ser controlados como um interruptor que se liga e desliga quando queremos. Como já me disseram muitas vezes "ah e tal não penses nisso que passa". As pessoas vão tentado convencer-nos de que o que sentimos não é um problema assim tão grande, e que existem coisas piores no mundo. Então, durante anos, as pessoas ignoram a sua condição, adiam a vida e o pedido de ajuda porque aos olhos dos outros isto não é nada. Transtornos psicológicos são criados no nosso cérebro, não é algo que possamos sempre controlar ou mesmo resolver. Por isso, não sintas vergonha disso, nem de procurar ajuda. Não sintas vergonha se o teu melhor amigo é um comprimido SOS. Não sintas vergonha se ainda ficas preocupada ou ansiosa quando pensas em determinadas coisas. Está tudo bem. E por muito que não pareça, vai ficar tudo bem. Nesta altura do campeonato, caso estejas a passar pelo isolamento sozinha e não tenhas ninguém em casa para desabafar, liga a alguém, pega numa folha de papel e escreve, mas não deixes que os pensamentos te abalem. 

Vai ficar tudo bem.

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