NA TV | The Haunting of Hill House

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A Maldição de  Hill House é uma série original da Netflix readaptada do livro The Haunting of Hill House da autora Shirley Jackson publicado em 1959. A série de terror fala-nos sobre a família Crain, composta por Hugh Crain, Olivia Crain e os seus cinco filhos, Steve, Shirley, Theodora e os gémeos Luke e Eleanor, que se mudam no inicio do verão para a mansão Hill com novamente o objectivo de recuperar a casa e deixar completamente nova para venda. No entanto, entranhos acontecimentos começam a assombrar os filhos e a esposa de Hugh Crain, e este só consegue a escapatória numa noite que os vai deixar cheios de questões e com marcas que os vão atormentar até à fase adulta.

A série recebeu o título do livro, mas em pouco se assemelha a este. Algumas personagens têm os mesmos nomes, mas não vestem os papéis da obra literária. O enredo não foi recuperado das páginas de papel, mas sim, moldado numa nova história. Esta liberdade do produtor poderia ter resultado num desastre, no entanto, resultou uma tremenda surpresa e numa série rica em lições. Algo que na minha opinião é raro nos conteúdos de terror de hoje em dia. A Maldição de Hill House é uma série que vai muito além do terror, mas que conta com um episódio piloto que traça de imediato o seu público. Logo nos primeiros minutos, os mais sensíveis e medrosos são convidados a abandonar a história, enquanto que para aqueles que insistem em descobrir o mistério da casa, a ansiedade vai crescendo à medida que a história se desenrola. Há sustos de tapar-mos os olhos, cenas que nos deixam com pele de galinha e uma história repleta de confusão e incertezas que nos vai consumindo e nos leva a querer ver mais e mais até descobrir-mos tudo.  O terror está presente ali o tempo todo e age como um desconforto para o espectador, dando a sensação de que algo não está certo e que a qualquer momento algo mau vai acontecer. Em vários momentos da série existe a sensação de que os personagens não estão sozinhos nas divisões, e de facto nunca estão. 


A filmagem e a fotografia da série são perfeitas e são elementos que combinados com a história formam uma série perfeita, com uma história fantástica e viciante. A qualidade dos cenários e as cores combinadas com a naturalidade dos diálogos e das acções carregadas de sentimento por parte dos actores dão dinamismo e exploram ainda mais a atmosfera de suspense e medo em quase todas as ocasiões — é como se eles trespassem para nós aquilo que estão a sentir no momento. A história oscila entre o passado e o presente e, conforme vamos apanhando os pedaços que preenchem as questões que vão surgindo, também vamos conseguindo entender o que originou certas escolhas, certas características e atitudes das versões adultas dos filhos de Hugh e Olivia Crain. A Maldição de Hill House não é apenas uma história de fantasmas, mas uma história de memórias, de verdades não contadas e, sobretudo, de aceitação do que é ou não real. Estes são os traços que nos acompanham ao longo dos episódios, o que retratam um ambiente denso e um tanto melancólico. É impossível que não nos sintamos sugados para aquela escuridão que os rodeia. 

De uma forma subtil e cativante a série carrega-nos através de problemas reais, físicos e psicológicos, herdados de um forte evento traumático na infância e de anos de silêncio. O final é satisfatório e encerra a narrativa sem deixar qualquer ponta solta. É um final que mesmo estando à espera, surpreende. Um final aconchegante e sem frustrar as expectativas. Este novo "prestige" da Netflix explora o medo, a dúvida, o amor fraterno e o ressentimento. É uma série acima de tudo familiar, mas que não deixa de mexer com a nossa ansiedade e desconforto. A Maldição de Hill House mostra-nos que os verdadeiros fantasmas estão dentro das nossas relações, pensamentos e vícios, e vai fazer com que as luzes se acendam mais vezes lá em casa e o corredor escuro vai levar-nos a hesitar um pouco, antes de atravessar.

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